Podemos nos enturmar?
Sabemos que ninguém alcança o sucesso sozinho. É de suma importância termos parceiros que cresçam conosco, somando e compartilhando os resultados. Seguindo esta idéia, um texto interessante, fazendo alusão a nosso tempo de “turmas”:
“Na minha adolescência era muito comum andarmos em turmas (ou grupos). Por algum motivo secreto, ao sairmos, nos ajuntávamos naturalmente e as turmas se formavam.
Esses grupos nos garantiam algumas coisas:
- segurança;
- compartilhamento de recursos;
- troca de conhecimentos;
- possibilidade de transitarmos por alguns locais com mais facilidade;
- acesso à algumas pessoas de destaque;
- um status diferenciado.
Andar com a “turma” mais descolada era um prêmio ou um benefício muito disputado. Lembro quando começamos a andar de skate em Goiânia. A marca da moda era Hang Ten, a loja era a Tube, os lugares descolados eram as discotecas, o barato era descer pela Praça Universitária em slalon, num shape de fibra ou então no ralph pipe da 105, no setor Sul. E a “nossa turma” estava em todas, pois sabíamos tudo desse mundo e estávamos sempre nos points, cheios de informação conseguida às duras penas através das revistas especializadas ou no contato com outros carinhas. Tudo muito colaborativo. No mundo surfwear (do qual deriva o skate) as coisas são assim: existe uma competição, mas, em geral, todos torcem por todos. Uns ajudam aos outros para que todos consigam aquela manobra cada vez mais radical. Afinal, é bacana ter a sua nova manobra reconhecida e o grande reconhecimento está na imitação: quando muita gente busca te imitar, mais popular seu nome fica e isso te obriga a tentar inovar mais e mais, pois, um dia, alguém vai conseguir fazer a mesma manobra e, pronto, acabou a exclusividade.
Acontece que, agora, à frente de organizações, nos esquecemos de como isso é bom e importante para o nosso desenvolvimento. Deixamos as “turmas” de lado e resolvemos que somos suficientes em nós mesmos. Podemos caminhar sozinhos, e sempre daremos conta do recado. Nossas ações individuais serão suficientes para nos manter sempre adiante, no mercado que atuamos. Não precisamos de ninguém.
Certa parcela dessa solitária jornada é motivada pelo nosso medo de sermos imitados. As imitações de nossas manobras são uma ameaça. Afinal, tivemos essa “idéia sensacional” e temos de mantê-la em segredo, pois se outras a copiarem não ganharemos a competição.
Só nos esquecemos que todos tiveram a mesma idéia genial à cerca de condições operacionais e administrativas que não agregam valor algum às nossas organizações. Ficamos escondendo o obvio de nossos concorrentes, porque o que eles querem é a nossa destruição, mesmo que não estejamos competindo em mercados comuns ou na mesma linha de produtos. Não sabemos mais nos ajudar, não torcemos pelo sucesso uns dos outros, não colaboramos para descobrirmos coisas novas juntos. Estamos sempre desconfiados das intenções uns dos outros. E se alguém levantar a bandeira da colaboração é taxado de ingênuo (ou burro).
Tentando entender essa situação, acredito que isso se deve à nossa inexperiência e pequenez. Somos tão pequenos que não vemos os movimentos das grandes corporações como exemplo. Lembremos:
AutoLatina – Empresa que unificou as operações de duas grandes concorrentes do mercado automobilístico (Ford e VW) quando ambas precisavam combater a crescente ameaça das outras concorrentes mundiais que chegavam ao mercado brasileiro. Projetos comuns, alinhamento de preços, segmentação de mercados, otimização de compras dos mesmos fornecedores, etc…
Essa ação foi fundamental para a estratégia de ambas para aquele período. Fortaleceu-as e as manteve em posições importantes no mercado, impedindo perdas maiores.
Logística GM/FIAT – Essas duas mega-empresas fundiram suas operações de compras e distribuição de peças de reposição em todo o mundo, como forma de reduzir custos operacionais significativos para as duas. Isso melhorou muito os custos de valores de seus serviços de assistência técnica, sempre considerados muito caros, frente à demais montadoras.
Rede 2000 – Associação de várias pequenas farmácias goianas que tinha como foco a compra cooperada de medicamentos, o que possibilitou acesso aos grandes laboratórios e a compras de volumes maiores sem que isso afetasse os estoques de cada unidade, individualmente. Os custos de reposição melhoram e foi possível combater as duas grandes redes que dispunha de distribuidores próprios.
Essa estratégia foi tão boa que causou um enorme impacto no mercado, levando uma das grandes redes à falência e popularizando esse modelo, propiciando a criação de outras associações (Rede da Economia e Nossa Rede).
Quem se lembrar de mais algum exemplo pode postar nos comentários.
Dias desses passados, tivemos um experiência bem bacana em São Paulo, no Software Innovation. A “turma” de Goiás estava bem representada: Tron, LG Informática, Siagri, Decisão Sistemas, Acttive Software, Artil Sistemas. Sentamos à mesma mesa, nos divertimos falando de banalidades, aprendemos e trocamos idéias sobre o evento, fomos observados pelos outros participantes.
Alguns estavam no mesmo hotel, mas fizeram reservas separadas e pagamos mais caro por isso. Compramos passagens, cada um em uma agência, e pagamos mais caro por isso. Mas foi bom convivermos dois dias juntos, como se nem fossemos concorrentes. Despreocupados de falar do que estamos fazendo para o futuro.
Foi bacana, também, ao nos despedirmos, invocarmos esses espírito de colaboração e interação para o nosso dia-a-dia: “Vamos nos encontrar em Goiânia, para trocarmos umas idéias.”
Pena que ficou só na intenção!
Associarmos na busca de soluções para nossos problemas comuns. Que sonho! Um sonho que tentamos resolver com a criação do Sindinformática, faz quase uns 20 anos, ou mais recentemente com a Comtec. Por que não conseguimos nos enturmar? Hoje essas duas entidades estão tentando se unirem para que as empresas de tecnologia da informação possam ser beneficiadas por elas mesmas, agindo juntas, naquilo que é possível.
E, se pesarmos bem, não é pouca coisa. Vejam o que podemos fazer:
- treinamento de mão-de-obra técnica;
- aperfeiçoamento de gestores;
- pesquisa e desenvolvimento voltados a inovação;
- compras de recursos comuns;
- se formos ousados, podemos até desenvolver produtos em conjunto.
Quando falo de colaboração entre empresas, fico pensando na simplicidade que seria se trabalhássemos juntos e nas enormes dificuldades para que isso aconteça. Será nossa herança mineira? Seremos eternamente desconfiados uns dos outros?
Na Tron, temos investido tempo em discutirmos como praticar a colaboração com outras empresas e sempre que suscitamos isso em público observamos que as pessoas até se dispõem, mas, na prática, nada acontece. O que precisamos fazer? Quais são nossas restrições? Que medo é esse?
Nossa crença é que o ambiente ideal para essa discussão continua sendo o das entidades associativas, por isso participamos intensamente do Sindinformática e da Comtec, com a esperança que os outros empresários acordem para essa oportunidade de crescimento.”
Autor: Jeferson Sena
Fonte: COMTEC / Blog Pensando Alto


